terça-feira, 3 de janeiro de 2017


No micro espaço entre os lábios e o beijo

Existe um silêncio macroscópico

Em que a pele exala o odor do jardim ao nascer do dia

Forte, cheio de vida, pleno de cor!

Abrem-se as flores para receber o sol

Abrem-se os poros para receber o sal

Queima o sangue que corre apressado

Nas artérias e veias

Acelera o coração descompassado

À espera do beija-flor

Do zumbir da abelha

No ouvido onde martela o coração aflito

Por não poder dar o grito

De prazer no corpo que explode!

E o jardim encanta-se e revela tudo o que a noite escondeu

Aqui, neste lugar que poderia ser tudo

O início ou o fim do mundo

Somos o que queremos

Dançamos como nascemos

E renascemos a cada toque

Da melodia que não se esquece

E, cá dentro, o sol aquece e expande o infinito do sonho por revelar!

Somos Tudo!

Até sermos mar…

Cris Anvago

Queres porquê?

Porque nunca tiveste?

Porque desejaste e é impossível para ti (assim tu achas)?

Porque tiveste e perdeste?

Porque os outros têm e tu não?

O querer é tão importante quando é inatingível

Na tua mente é o impossível

O irrealizável

O que não está na tua vida!

Por isso queres

Por mero capricho

Determinação ou opção

É um desejo de querer o que pensas

que deverias ter!



Queres!

Só que não podemos querer tudo

Algumas coisas não são de ninguém

Existe uma liberdade

E essa liberdade é tão solta e leve

Que não é de ninguém!

Nem será de ti

Não tens que possuir!

Tens que aceitar, partilhar…

Não podes querer por querer

Existe a liberdade

Que o pensamento é livre

E o coração voa

Tem vontade própria!

Afinal o que queres?

Possuir algo que não será de ninguém

Alguém que não se que dar a ninguém?

Sabes, existem espíritos livres que não se dão

Não querem ser aprisionados.

Pensam para além do material

Para além do que achas “normal”

Sim! Não existe normalidade

Existem princípios que pouca gente respeita

Pouca gente se respeita

E isso é triste

Queres possuir algo?

Para quê?

Tudo o que existe não é teu, nem meu, nem de ninguém!

É de todos!

Sem amarras, grades, sem nada!

Também queres o céu e as estrelas?

E as outras pessoas não poderiam vê-las?

Trancavas no teu quarto todas as estrelas só para ti?

Porquê?

És mais que os outros?

Tens o poder do egoísmo em que tudo gira à tua volta e tudo te pertence?



Pois…pensa um pouco…podes pensar?



Tu! Por exemplo tu! Pertences-te?

Tudo começa por aí…

Cris Anvago

O rio transbordou em nós!





Gélida a noite

Chuva intensa

Inverno que arrepia!

Os nossos corpos

São o espelho do rio

Mas não na estação

Somos verão!!

Cris Anvago





Na madrugada espelham-se as olheiras de quem amou a noite inteira.

Os corpos descansam abraçados

Estranhamento colados

Como se fossem um só

As respirações ofegantes

São agora leves brisas

Que fazem esvoaçar

Pequenas pétalas de flor

Suspiros de amor

Em manhã primaveril

De quem muito teve

Riu e sorriu

Até uma lágrima caiu

De felicidade vestida

Pele com pele

Poro com poro

Fragrância que perdura

No ambiente fechado

Quarto iluminado

onde os gritos foram abafados

Por beijos ternos

Toques selvagens

Palavras impercetíveis

Viagens imperdíveis

Por oceanos não descobertos

Espalham-se as olheiras

Sorriem os olhos

De quem nunca deixou de se olhar…

Cris Anvago

Interessante é fotografar a alma das pessoas com a retina do nosso olhar!

Cris Anvago



Serei muito pouco

se ignorar o muito

que existe dentro de mim!

A voz que grita

o sangue que dança

nas veias que se espreguiçam

num bailado sem fim.



A melodia cresce

e floresce nos lábios

que trauteiam a canção

repetida dias sem parar.



Sempre é preciso recomeçar!



Quando o dia amanhece

o espanto acontece

no segundo após acordar

nos lábios sedentos de mel

sempre com desejo de beijar

Um novo dia que nasce.

Abraçar os instantes

da vida que pulsa

Sem ignorar a beleza que me embala

serei muito pouco

quase nada…



Sempre é preciso recomeçar!



Não posso ignorar o grito profundo

vulcão que nasce

nem sei bem de onde

força e vontade

dar-lhe plena liberdade

para que floresça

e cresça

fora de mim!

Cris Anvago

Parada

Na sombra da escuridão

A lua brilha

O olhar não!

As estrelas

Escondem-se

Esperam

que alguém

lhes estenda a mão…

Penduradas no céu

vestem-se

nas noites frias

com o véu da neblina.

Parada

A sombra que não diz nada

Espera pelo sol

Para pulsar

Agitar o sangue morno

que habita

na dormência
da noite fria!


Escuridão…

a lua brilha?

NÃO!

Cris Anvago

Estou nos bastidores

Por detrás da lua

Aquele grande holofote

Que tu pensas ser só tua!

Que vês e admiras

E nem vês se as estrelas brilham

Se o seu movimento é discreto

Curvilíneo ou reto.



Estou nos bastidores

E vejo todos os espectadores

Uns interessados,

outros que pensam que são

muito melhor actores

Mais arrojados!

Que sonham em grande

Aparecer e brilhar na televisão!



O que vês no céu

Nesse palco enorme

Não é filme

É teatro que acontece

Não é igual, mas parece

Noite após noite



E quando o dia nasce

A lua discreta desaparece

Para que o astro brilhe

O dia nasce

Não se fecha o pano

Ilumina-se o olhar de uma maneira diferente…

Cris Anvago



Nas montanhas

Semeei pensamentos

para que ecoem

bem alto

Que se inspirem

nas nuvens que os tocam

leves

soltos

sejam

reflexão

que rolem

sejam inspiração

toquem o coração

de quem anda perdido

de si…

que sejam sonhos

por realizar

melodias

por inventar

amores

abraçados

bocas

que se querem beijar

silêncios

que gritem

bem perto do infinito

que as lágrimas

também evaporam

apesar da dor ficar

que sejam momentos

alegres

de um mar

por descobrir

veleiros

prontos a zarpar

viagens

dentro de nós

asas

para que possamos voar



Pega num pensamento que seja teu!

Que te reconforte

nem que seja por um momento

O pensamento semeado é teu!

Guarda-o, vive-o, recorda-o ou, deixa-o simplesmente voar…

Cris Anvago

Quero-te

Sem melancolia

Ou palavras banais

Palavras que lia

Nos livros normais

Agora sou mais exigente

Um livro para mim

É muito mais

que simples palavras

É gente!

Sentimento que exala o seu perfume

Em sentimentos

onde as palavras se embalam.



Quero-te

Muito mais do que o simples querer

Na manhã em que o nevoeiro cerrado

Parece um coração trancado

É ilusão, porque esse coração quer é viver!

Amar, mas aquele amar escancarado

Onde as palavras são mais do que o significado

Que pensas que são na tua primeira audição,

tens que sentir com todo o teu coração!



Quero-te

Sem preconceitos

E com todos os meus direitos

De te querer, amar e sentir

Sem possuir

Quero-te

De sorriso rasgado

Num corpo febril

Que espera por ti…



Quero-te em todas as estações

Sejam invernos ou verões

Não importa!

A minha porta está aberta

A minha poesia desperta

A melhor essência de mim

Por ti…



Quero-te pelo que és, pura essência, odor que se entranha em mim!

Cris Anvago

Desenrolei o novelo

Preso na garganta

Desprendi a palavra

Que dançava

Na ponta da faca

Deixei que o sangue fervesse

Nas veias

Que se expandiram

No espaço apertado

Onde se encontra

O sim e o não

Onde mora o talvez

A faca fica parada

Quieta

Sem nada!

A palavra

Pode ser palavrão

Quando não é controlada!

Descontrolam-se

As mãos que cavam

A terra endurecida

A vida pode ser

Faca

Que dança

Na corda

Que nos prende

Sufoca ou solta?

Cris Anvago